Jamais foi escrita uma biografia completa do apóstolo Paulo. Essa tarefa é simplesmente impossível por nos faltarem o início e o fim de sua história. Nosso registro de suas atividades começa em sua juventude, pouco antes de ele iniciar o apostolado. Foi aí que Lucas o conheceu e incluiu-o em sua história da Igreja Primitiva. Além disso, só temos algumas notas pessoais nas epístolas1 eclesiásticas e pastorais escritas por ele em diferentes partes do Império Romano. Apesar das muitas lacunas desses registros, temos o suficiente para tornar o relato um dos mais emocionantes da história.
Está claro que não houve monotonia na vida de Paulo. Sumariando esse período, ele menciona vividamente alguns episódios:
“Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo. Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da. minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez” (2 Coríntios 11.24-27).
Em lugar algum, porém, esta história é inteiramente contada. Além do breve relato de um naufrágio, os outros não são mencionados. Não há nenhuma narrativa da noite e do dia terríveis passados em alto mar, agarrado talvez a um destroço. Nem é feita a descrição dos assaltos nas passagens montanhosas, onde os ladrões tornaram-se tão ameaçadores para os viajantes, que estes tinham de se organizar em caravanas. A seguir vieram os rios caudalosos e as enchentes, com apenas algumas pontes para cruzá-los. Para os de viva imaginação, essas aventuras são verdadeiramente estimulantes! Embora não haja registro da infância de Paulo, uma história muito interessante pode ser montada a partir das informações colhidas da história, da tradição e das notas pessoais nos escritos paulinos.
O Nascimento de Paulo
O grande apóstolo nasceu por volta do ano três de nossa era, no lar de um piedoso casal, no bairro judeu de Tarso. As ruas eram estreitas e as casas pobres, mas aquele dia foi de imensa felicidade para a família. Contemplaram o rosto do filho, e sentiram-se satisfeitos e orgulhosos. Embora vivessem numa cidade gentia, seus pais resolveram dedicá-lo ao serviço de Deus, e fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para educá-lo como um verdadeiro israelita. O pai pertencia à tribo de Benjamim e gabava-se disso sempre que os vizinhos mencionavam suas árvores genealógicas. Todos sabiam que Saul, o primeiro rei de Israel, era benjamita. Apesar de morar em Tarso, a família considerava as montanhas orientais da Palestina o seu verdadeiro lar como o faziam os judeus piedosos. Para eles, Jerusalém era a cidade mais bela do mundo, pois ali estava a Casa de Deus. Eles enviavam ofertas para os reparos do Templo, e a cada ano planejavam visitar a Cidade Santa por ocasião da Páscoa. Oito dias após o nascimento do menino, os pais deram-lhe um nome. A cerimônia foi seguida de uma ceia, para a qual todos os amigos e parentes foram convidados, e cada um levou o seu presente. Ele recebeu o bom nome hebreu de Saulo. Esse era um nome mui querido de todos os descendentes de Benjamim porque assim se chamava o primeiro rei de Israel. Mas como viviam no mundo romano, usaram também a forma latina do nome — Paulo.
Nos negócios, ele era Paulo, porque isso impressionava os gentios. Mas a mãe sempre o chamava de Saulo, pois esse nome agradava-lhe o coração.
Primeiros Ensinamentos em Casa
O pai de Saulo era muito severo. Sendo fariseu, acreditava que os mandamentos de Moisés, como interpretados pelos rabinos e escribas, deveriam ser observados à risca. Uma caixa metálica brilhante, medindo 2×7 centímetros, ficava pendurada no batente de sua porta. Quando os visitantes chegavam, ou saíam, tocavam-na e beijavam os dedos, resmungando algumas palavras da Escritura. Dentro da caixa, escritos num pedaço de pergaminho, estavam versículos da lei de Moisés, começando com aquelas palavras tão familiares: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder” (Dt 6.4-5). Esta caixa era chamada de mezuzah. Antes de o pequeno Saulo ter idade suficiente para falar, provavelmente já imitava os outros. Do colo da mãe, esticava o bracinho roliço para tocar a caixa brilhante, beijando em seguida a mão como vira outros fazerem. Prazenteira, a mãe sorria, acariciando-lhe a cabecinha.
À medida que Saulo crescia, aprendeu a ajoelhar-se com o rosto voltado à distante Jerusalém e, com as mãos cruzadas à frente, já fazia uma oração pela manhã e outra à noite. Quando perguntou a razão de ter de olhar para Jerusalém, foi-lhe dito que o Santo Templo estava ali, e que no Lugar Santo, por trás da grande cortina púrpura, Deus habitava no meio de seu povo. O menino não compreendia tudo, mas ficava impressionado porque a voz da mãe tornava-se solene, e ela curvava a cabeça todas as vezes que falava de Deus.
Ela também contava-lhe como o profeta Daniel, quando exilado numa nação gentia, jamais se esquecera de abrir as janelas em direção à Cidade Santa, e falar com o seu Deus. Instado a não mais orar, recusou-se a obedecer o edito do rei e, como castigo, foi lançado à cova dos leões. Mas as feras não lhe fizeram mal algum, porque Deus fechara-lhes a boca. A mãe de Saulo contou-lhe as histórias de seu povo. Falou da opressão do Egito e de como Deus libertara o povo das mãos de Faraó, fazendo-o atravessar em triunfo o mar Vermelho. Ela nunca se cansava de mencionar Saul, o rei de quem o filho levava o nome, e como ele fora o mais alto, belo e majestoso de todos os homens de Israel. Enfatizava repetidamente o fracasso dos juizes e a humildade de Saul, o primeiro rei de Israel. “Por causa de sua humildade”, repetia-lhe a mãe, “ele foi honrado por Deus”.
Mas o fim trágico de Saul ficou gravado para sempre no coração de seu jovem homônimo, numa advertência de como Deus rejeita o que dEle se desvia para buscar a própria glória. A mãe de Saulo costumava concluir seus ensinamentos, citando a Escritura: “Aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão envilecidos” (1 Sm 2.30). De igual modo, contou a Saulo sobre Abraão, o pai do seu povo; Moisés, o grande legislador; Gideão, Sansão e a rainha Ester, filha de judeus pobres. Os heróis da nação judaica tornaram-se parte dos seus pensamentos e da sua conversa diária. Suas histórias preferidas eram as de aventuras e combates. Quando o sol enorme e quente descia por trás dos morros da Panfília e as estrelas surgiam no céu púrpura, era a hora de todo menino dormir. Saulo e a irmã sentavam-se, então, nos joelhos da mãe e ouviam-na falar de Davi, o pastorzinho que matara um urso e um leão que tentaram devorar-lhe as ovelhas. Ela contava também sobre o grande rei Salomão, cuja glória maravilhava o mundo inteiro; falava ainda sobre a rainha de Sabá que fora a Israel verificar se era verdade tudo o que se dizia sobre a sabedoria e riqueza do rei Salomão. Uma das histórias favoritas de Saulo era a do profeta Elias, que se escondera numa caverna e fora alimentado pelos corvos. Num dia glorioso, no monte Carmelo, com todos os profetas de Baal contra si, Elias pediu fogo do céu, e mostrou ao povo quem era verdadeiramente o Deus Todo-Poderoso. Aos poucos, mas solidamente, foi-se desenvolvendo no menino a consciência de que pertencia a um grande povo. Orgulhava-se de que, embora minoria em Tarso, os judeus tinham Jeová por Deus, que sempre os abençoava quando eles o reverenciavam. Nas longas noites de inverno em Tarso, com os postigos e portas bem fechados para impedir a entrada dos ventos frios do Norte, a família reunia-se ao redor da lâmpada de óleo que brilhava. A mãe tecia o pano para fazer um casaco para o pequeno Saulo. Enquanto seus dedos guiavam os fios, contava aos filhos sobre a túnica que Jacó dera a José, e como este, despertando os ciúmes dos irmãos, fora por eles vendido ao Egito. Mas Deus estava com José, que se tornou o primeiro – ministro no governo de Faraó, rei do Egito. José foi o meio usado para salvar o seu povo da grande fome que sobreviera à terra de Canaã. Mãe alguma tinha uma reserva tão grande de histórias, nem jamais as contara com tanto orgulho e convicção.
A Sinagoga
A mãe de Saulo levou-o à sinagoga quando ele atingiu a idade apropriada. Ao chegar, lavaram os pés empoeirados e depois sentaram-se na seção das mulheres e crianças, separada da dos homens adultos por uma treliça de pedra. Através da treliça, ele podia ver o pai sentado no chão com os homens, ouvindo enquanto o rabino lia a Lei, e dirigia-se à congregação. Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás pois o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E essas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas (Dt 6.4-9).
O pequeno Saulo não compreendia muita coisa do que se passava na sinagoga. Mas a mãe achava que ele deveria conhecê-la desde a mais tenra idade para, mais tarde, sentir-se estimulado a frequentá-la regularmente. Ela podia imaginá-lo dentro de poucos anos, sentado com os outros homens, discutindo os caminhos de Deus e, depois, como rabino, explicando as Escrituras. Seu coração estremecia com o privilégio de educar um filho de Israel que freqüentasse a sinagoga de Tarso durante toda a sua vida. Durante aqueles primeiros anos, a mãe de Saulo foi sua única professora. Olhos puros fitavam olhos confiantes. E, assim, Saulo passou a viver conforme o padrão escolhido pela mãe. Ela sabia que era seu dever levar o filho a conhecer e a amar as Escrituras conforme ensinara Moisés: Quando teu filho te perguntar pelo tempo adiante, dizendo: Quais são os testemunhos, e estatutos e juízos que o Senhor nosso Deus vos ordenou? Então dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó no Egito, porém o Senhor nos tirou com mão forte do Egito (Dt 6.20,21).
Os Ensinamentos do Pai
Os rabinos da antigüidade diziam que as lições em casa deviam começar aos cinco anos. O pai seria o principal professor nesse período, cuidando da educação do filho. A escola começou então oficialmente para Saulo nessa idade. Depois disso, o aprendizado não se baseava tanto nas histórias, mas na memorização de versículos do Antigo Testamento e dos cânticos da sinagoga. Os salmos de Davi eram usados como hinos de adoração, e cada menino tinha de aprendê-los, juntamente com os mandamentos de Moisés e as tradições dos grandes rabinos. Grande parte da educação resumia-se em decorar textos. Para Saulo, este exercício iniciou-se aos cinco anos e continuou até os trinta. Os judeus não precisavam estudar outros livros didáticos. As Escrituras continham todos os conhecimentos relativos à vida. As histórias do seu povo eram o seu único prazer, e extrair conhecimento de quaisquer outras fontes era desencorajado e visto com desconfiança.
A primeira lição de Saulo, baseada num versículo de Deuteronômio, foi-lhe transmitida em grego. Ele a repetiu várias vezes até decorá-la: “O que o Senhor requer de mim, senão adorá- lo e andar em seus caminhos, amá-lo e servi-lo de todo o meu coração e alma, e guardar os mandamentos que Deus ordena neste dia para o meu bem?” Depois disso, Saulo decorou verso após verso das muitas promessas divinas, pois os seus pais acreditavam que, se um judeu fosse bom e adorasse a Deus, o Senhor abençoaria sua casa, campos e negócios. Mas, se não amasse e adorasse ao Senhor, certamente Deus o castigaria, retirando-lhe sua bênção. Desde a infância, Saulo foi levado a crer em tudo o que a Escritura dizia. Mais tarde, não teve dificuldade em aceitar tudo o que ensinava o rabino. Aos seis anos, seus pais o levaram pela mão à escola de rabinos. Com um olhar de medo e saudade, o menino largou a mão da mãe, que o entregou ao professor. O ambiente não era tão confortável como sua casa. O mestre era um estranho barbudo. O pai ficou ali mais algum tempo, observando o filho sentar-se de pernas cruzadas na companhia de outros trinta garotos, que olhavam fixamente à face severa do mestre.
Os pais voltaram para casa experimentando uma mistura de sentimentos. Orgulhavam- se pelo fato de o menino estar crescendo, mas entristeciam-se porque o tempo de seu aprendizado no lar chegara ao fim. Todavia, sentiam-se satisfeitos porque o filho ia ser educado como um verdadeiro hebreu, embora estivesse numa cidade grega e distante do Templo de Jerusalém. Diferentemente das escolas gregas, não havia na escola da sinagoga nem aula de desenho nem de pintura. Traçar a figura de um homem, pássaro ou animal era proibido pela Lei. Os jogos e esportes gregos também não tinham espaço nas escolas rabínicas; eram costumes pagãos desprezados pelos eruditos judeus. Em casa e na escola, Saulo aprendeu que a maior coisa do mundo era adorar a Deus de todo o coração e obedecer aos mandamentos de Moisés. Não havia necessidade de carregar livros, pois nem o professor os possuía. Em voz alta e monótona, este repetia as lições aos alunos até que tudo lhes ficasse gravado na memória. Era repetir, repetir e repetir.
Como todos os meninos, Saulo fazia inúmeras perguntas. Seus pais encorajavam-no a isso, especialmente no que dizia respeito aos rituais religiosos. Saulo devia perguntar por que a mãe varria a casa e acendia a lâmpada, entregando esta depois ao pai a fim de procurar migalhas em todos os aposentos. Por que comiam pão sem fermento, com as cabeças cobertas, como se estivessem prontos a fugir do inimigo? Por que a mãe acendia uma vela a cada noite, até que, depois de oito noites, a casa ficasse toda iluminada? Por que esperavam tão ansiosamente a lua nova? Ele perguntava todas essas coisas e muitas outras. O pai, muito orgulhoso, explicava-lhe o significado de cada uma delas: como eles celebravam os grandes dias de sua história, e como Deus lhes ordenara que essas datas fossem lembradas. Os judeus eram diferentes de todos os povos do mundo; nessa diferença, repousava o seu orgulho e alegria. A seguir, veio o aprendizado do alfabeto, tanto hebraico quanto grego. Se na sinagoga, o hebraico era falado e lido, em casa e nas ruas, até os judeus falavam o grego. Saulo teve, portanto, de aprender ambos os idiomas. O pai retirava os rolos sagrados da caixa, entregava-os ao filho, e punha-se a contemplá-lo satisfeito, enquanto o menino fazia a leitura na amada língua hebraica.
O Dia de Sábado
Como as escolas não funcionavam aos sábados, as crianças judaicas esperavam ansiosas por esse dia. Os cidadãos de Tarso não guardavam o sábado, e odiavam os judeus por serem tão diferentes. O pai suspendia o trabalho mais cedo na sexta-feira, e parecia contente ao ver a casa varrida e arrumada, os filhos vestidos com as melhores roupas e a refeição da noite sobre a mesa. O dia de descanso começava com o pôr-do-sol na sexta-feira e ia até o fim do sábado. Quando a escuridão descia sobre a cidade, o som da trombeta era ouvido do alto da sinagoga. Os pais de Saulo inclinavam-se juntos. Em seguida, o chefe de família impetrava a bênção sobre o lar. Ato contínuo, lavava as mãos numa bacia de água e colocava um pouco de vinho na taça. Reunidos em volta da mesa, todos provavam do cálice. Então o pai dizia algumas palavras a respeito do Senhor e, mergulhando um naco de pão no sal, oferecia-o a cada membro da família. Esse era o começo do melhor dia da semana.
Eles sentavam-se para uma refeição composta de peixe, sopa, pão e frutas. Era o dia de descanso solene e não se avistava nenhuma fumaça evolando-se das casas judias, pois Deus ordenara fosse o sábado um dia de repouso. Nenhum fogo era aceso; nenhum alimento, cozido; e o pai declarava gravemente que quem desobedecesse devia ser morto. Moisés não condenara à morte o homem flagrado colhendo gravetos para acender o fogo no sábado? Nesse dia, todos iam à sinagoga. Por trás da treliça que separava as mulheres e crianças da parte principal do prédio, Saulo podia ver o pai no grande salão onde ardia o castiçal de sete hastes. O pai removia os sapatos e amarrava filactérios nos braços e na testa; colocava um xale azul na cabeça, e voltava-se em direção a Jerusalém, para orar com os outros homens. As portas eram então fechadas e, de algum ponto, uma voz cantava: “Bendito o Senhor, o Rei do universo, que fez a luz e as trevas, que envia a paz e cria todas as coisas e quem, na sua misericórdia, dá luz à terra; quem, na sua bondade, renova dia a dia as obras da criação”. Podia se ouvir dos lábios dos ouvintes um “amém” em voz baixa, enquanto todas as cabeças mantinham-se inclinadas.
Enquanto observava, Saulo viu um dos homens pegar um rolo grande de pergaminho e fazer a leitura em hebraico. Era a lei de Moisés. Cada sentença era repetida em grego a fim de que todos pudessem entender. A seguir, um dos principais da sinagoga comentava o trecho lido. Às vezes, argumentava acaloradamente, citando opiniões dos grandes rabinos. Eles também faziam perguntas difíceis e procuravam respondê-las demonstrando grande autoridade. Depois das perguntas, uma breve bênção despedia o povo que saía em silêncio. Às vezes, reuniam-se nas casas, mas nunca passeavam a pé, já que era proibido andar mais de §00 metros nesse dia. Quando o sol se punha, o pai reunia a família e orava por cada um em particular, pedindo a bênção de Deus sobre o dia que terminava.
O Rigor dos Fariseus
Todas as regras que Saulo aprendia na escola eram seguidas rigorosamente pelo pai; este era meticuloso até na forma de lavar as mãos. No lar de Saulo, havia mais rigor e disciplina que na maioria dos de seus amigos. Seu pai era fariseu e decidira que o filho também o seria. Ser fariseu significava pertencer a mais importante seita do Judaísmo. Os saduceus pertenciam à classe alta e rica; eram a aristocracia; ocupavam a maioria dos altos cargos, mas não se importavam com a fé nem com a moral. Aceitavam as Escrituras de modo geral, mas não acreditavam no céu, nem nos anjos, ou na vida após a morte. Os fariseus apiedavam-se deles; achavam que o desejo de ser modernos virara-lhes a cabeça. Por seu turno, os fariseus não só aceitavam integralmente as Escrituras, como também as tradições orais dos rabinos. Diziam que as tradições originavam-se da Palavra de Deus. Eles estavam continuamente brigando e discutindo com os saduceus, por acharem ter alcançado uma posição superior à de qualquer outra classe. Orgulhosos e intolerantes, agradeciam a Deus por não serem como os demais.
Andar uma milha, carregar um graveto, ou acender o fogo no sábado era considerado ofensa grave por Saulo e seu pai. Até mesmo comer um ovo posto por uma galinha no sábado era considerado pecado. Saulo pensava, trabalhava e crescia segundo os ensinamentos do farisaísmo. Preparou-se gradualmente para liderar outros nessa tradição, sem jamais sonhar que, um dia, des-pojar-se-ia dela como de algemas pesadas, liberto que seria por Cristo.
Influências Gentias
Ao norte da cidade ficava a pista onde eram disputadas as provas de atletismo. A cidade inteira comparecia para apreciar tais eventos. Menino algum que crescesse em Tarso poderia fugir à influência desse lugar. Os jovens da Grécia e de Roma gostavam tanto de correr, e davam a isso tamanha importância, que um vencedor tornava-se herói nacional, e tinha uma estátua erguida em sua honra.
Saulo foi tão influenciado por essa pista de corrida que, mais tarde, em seus escritos, comparou a vida cristã a uma prova atlética. Considerou que a vida em Cristo tem um ponto de partida, uma pista e um alvo. O cristão não é alguém sem rumo; tem um alvo diante de si e concentra-se na busca do prêmio. À medida que a vida de Saulo aproximava-se do fim, sua mente voltava à pista. E ele escreveu a Timóteo: “Completei a carreira” (2 Tm 4.7).
Saulo provavelmente nunca teve permissão para assistir a esses jogos. Era um passatempo gentio e impróprio para um bom judeu, principalmente se fosse fariseu. Não obstante, ele via os jovens gregos treinando para as corridas, e não podia deixar de se interessar pelo vencedor. O teatro também atraía milhares de pessoas cultas; o melhor no campo da música, poesia e drama era apresentado ali. Os judeus, porém, não apreciavam tais frivolidades. O pai de Saulo considerava-as supérfluas e inadequadas ao filho de um fariseu. Quando permitia que Saulo fosse ao ginásio ver os rapazes saltar, correr e praticar todo tipo de esportes, dizia-lhe que o exercício físico era necessário à formação de bons soldados, mas o jovem que estudasse a lei de Moisés seria um homem melhor.
O Filho da Lei
Quando Saulo completou 13 anos, sua vida passou para um estádio totalmente novo. Aos poucos foi tomando consciência das responsabilidades da vida pessoal e comunitária. Conforme ensinavam os rabinos, ao chegar aos 13 anos, o jovem torna-se responsável por seus atos e já pode ser admitido na seção masculina da sinagoga. A fim de marcar tal mudança, Saulo foi levado à sinagoga para uma cerimônia conhecida atualmente como bar mitzvah.
O pai disse-lhe que até então ele estivera aprendendo a Lei, mas chegara a hora de obedecê-la. Chegara a hora da responsabilidade. Como bons pais, tinham feito o possível para educá-lo na pureza da fé. Agora, achava-se ele por conta própria aos olhos da Lei Mosaica; se deixasse de obedecê-la, poderia ser castigado pelo tribunal da sinagoga como qualquer outro judeu. Depois de submetido a um exame solene, Saulo foi declarado apto para ter o filactério amarrado no braço, como sinal de haver adentrado a idade adulta. Na sinagoga mal iluminada, os amigos da família reuniram-se enquanto o pai apresentava o filho ao rabino. Este prendeu a pequena caixa preta na parte superior do braço de Saulo, e recomendou-lhe que nunca entrasse na sinagoga sem ela. A seguir, pela primeira vez em público, ele procedeu à leitura da Tora, mostrando ter sido educado como um verdadeiro hebreu. Depois disso, o rabino – seu velho amigo e professor fez-lhe um discurso, no qual resumiu muitas das lições que lhe ensinara. Com palavras de conselho, o líder espiritual acolheu-o na comunhão da sinagoga. Na audiência, por trás da treliça, a mãe de Saulo ouviu seu menino ser declarado filho da Lei. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Nunca mais ele se sentaria ao seu lado na sinagoga. Ela suspirou e chorou. Saulo tornara-se repentinamente um homem, e mãe alguma está preparada para tal mudança. Na caixa presa ao braço de Saulo, havia trinta versículos da Escritura, escritos em pergaminho, começando com a admoestação:
E te será por sinal sobre tua mão, e por lembrança entre teus olhos; para que a lei do Senhor esteja em tua boca: porquanto com mão forte o Senhor te tirou do Egito. Portanto, tu guardarás este estatuto (Êx 13 9,10). Veio a seguir a festa em casa; os amigos levaram presentes e deram-lhe os parabéns. Era a aceitação pública de Saulo como homem. Ele passou assim da infância para a idade adulta aos olhos de seu povo. Não era mais um simples escolar, e sim um estudante. Não abandonou os estudos; só mudou a maneira de estudar.
Fabricante de Tendas
Afirma o ditado rabínico: “O homem que não ensina um ofício ao filho quer que ele se tome ladrão, pois quem não trabalha para ganhar o próprio pão come o de outrem”. Sabendo disso, o pai de Saulo desejava que o filho tivesse uma profissão. Ele era fabricante de tendas e fora morar em Tarso atraído pela fama de seus tecelões. Essa reputação devia-se ao fato de o cilicium, um tipo especial de tecido, ser um produto da província. Era fabricado com o fio comprido do pêlo das cabras que pasciam nos montes da Cilícia, a oeste e ao norte da cidade. O cilicium era considerado o melhor material para tendas, pois, de tão duro, tornava-se quase impermeável. Também era empregado nas velas dos barcos e trajes externos dos pescadores e marinheiros. Havia uma pequena oficina nos fundos da casa de Saulo. Era um barracão comprido e baixo, aberto numa das extremidades, contendo um tear, rodas para tecer o fio, caldeirões para tingir o pêlo de cabra, e um banco para cortar o couro e costurar as tendas. Fardos de peles de cabra amontoavam-se num canto, do jeito que haviam saído das mãos do pastor. Várias vezes ao ano, o pai de Saulo viajava para as montanhas distantes, a fim de comprar peles. Ele sabia onde encontrar os pastores que vendiam 3s peles de pêlo mais longo e resistente de toda a Cilícia. Completadas as compras, carregava os jumentos com sua mercadoria e voltava à oficina. O pêlo tinha de ser então penteado e preparado para ser tecido. Uma parte era tingida de vermelho, outras de amarelo, roxo e verde, para atrair os mercadores. O fio era depois enrolado em fusos e preparado para as lançadeiras e o grande tear manual.
Preparado o tecido, vinha a fabricação da tenda. Saulo observava o pai cortar o material em tiras e costurá-lo com um fio bem forte e uma grande agulha de bronze. O segredo era costurar tão bem e tão apertado, que nem uma gota de chuva pudesse atravessar, ou vento algum rasgar o material. Não era fácil fazer uma boa tenda. Era preciso prepará-la, enrolar a corda, fazer as estacas e colocar ilhoses e ganchos de couro para pendurar caldeirões, panelas e arreios. A seguir vinham as decorações. Algumas tendas eram coloridas com largas faixas amarelas, vermelhas ou azuis. Mas o tipo comum não tinha faixas, era sempre preto ou cinza.
Com o passar do tempo, Saulo tornou-se um perito na profissão e podia fabricar tendas tão fortes e boas quanto as de seu pai. Ele nunca se esqueceu do seu ofício e, anos mais tarde, voltou a praticá-lo em muitas das cidades que visitou, pois não aceitava dinheiro das igrejas para o seu sustento. Um fabricante de tendas de Tarso era sempre bem recebido. Sua habilidade nessa profissão foi reconhecida em todo o mundo. Todavia, seus pais queriam que ele fosse um professor da Lei de Moisés, um rabino. Naqueles dias, todo rabino tinha um ofício, pois não era costume aceitar dinheiro pelo ensino. Não use a Lei como enxada para cavar – disse um dos mais famosos. Faça qualquer tipo de trabalho – disse outro. – Nem que seja tirar a pele de um cavalo à beira da estrada; e não diga para justificar-se: “Sou um sacerdote”.
Os Feriados Judeus
A semana mais importante do ano era a da Páscoa. Era uma grande data nacional; tinha um profundo significado religioso. A Páscoa celebrava a libertação dos israelitas do cativeiro no Egito. É claro que havia outros feriados, tal como o da Festa dos Tabernáculos, quando as crianças iam ao campo com os pais, e cortavam ramos para construir uma cabana em cima da casa, na parte plana do teto. Isso era feito para que se lembrassem da época distante, quando os judeus, ao deixarem o Egito, passaram a morar em tendas. Sem uma habitação permanente, vaguearam entre as rochas do deserto.
Havia também a Festa da Colheita, o Purim e o Dia da Expiação. Para cada grande dia, vários peregrinos piedosos deixavam Tarso e voltavam a Jerusalém. Saulo era ainda muito jovem para ir; mas, desde que Tarso ficava junto à estrada principal, ele se acostumara a ver centenas de judeus descansando ali, à noite, na longa viagem para o Sul. Por várias vezes, tios, primos e outros parentes haviam pernoitado em sua casa. Saulo lembrava-se de como, pelo menos uma vez ao ano, seu pai juntava-se a esses grupos de viajantes. Ele embrulhava suas melhores roupas a fim de vesti-las quando chegasse a Jerusalém, e depois arreava um jumento e partia alegre pela estrada que o levaria através das montanhas até o Santo Templo. Após meses de ausência, o pai voltava admirado, cheio de histórias de grandes aventuras, que entreteriam a família durante semanas. O menino, que nunca estivera em Jerusalém, ouvia extasiado as descrições entusiasmadas do pai e pensava que a grande cidade deveria estar logo abaixo do céu em glória e grandeza. O pai falava do toque das trombetas dos sacerdotes, ao iniciar-se o dia de adoração no Templo, e dos coros dos levitas, vestidos de branco, cantando os grandes salmos nos degraus de mármore. As ruas ficavam cheias de multidões alegres; turistas de todas as partes do mundo. Costumes interessantes podiam ser vistos em toda parte, e línguas estrangeiras eram ouvidas quando os grupos se juntavam nos pontos de reunião. O jovem Saulo ouvia essas histórias até sua mente ficar repleta de sonhos e visões. Quando ele também poderia ir a Jerusalém?
– Seja paciente, meu filho, não falta muito para você poder ir com seu pai – dizia-lhe a mãe.
De fato, na última viagem, o pai fizera alguns planos. Ele sempre esperara e ambicionara tirar o filho da cidade gentia de Tarso, dando-lhe a vantagem de uma escola em Jerusalém. Todo bom rabino fora treinado ali. Para ser bom professor era necessário ter contato com os grandes rabinos do templo. Desde que a mãe concordara com o plano, não havia mais dúvidas. Os negócios na fábrica de tendas tinham sido bons e, para o filho, não queria nada menos que o melhor. Enquanto estivera em Jerusalém, só se falava do grande Gamaliel. Muitos o procuraram durante os feriados para ouvir-lhe a sabedoria. Não se tratava de um simples boato. Seus discursos eram poderosos, pois ele falava com autoridade. Ficou então decidido que Saulo iria para a Cidade Santa, e talvez retornasse mais tarde como um dos grandes rabinos de Israel.
Texto extraído de: A Vida e os Tempos do Apóstolo Paulo. Autor: Charles Ferguson Ball. Editora: CPAD (Páginas 11-18)
NOTAS
-
Nota do Editor: Das 21 epístolas que compõem o Novo Testamento, a tradição cristã atribui 14 à autoria do apóstolo Paulo. ↩︎
